Há dez anos morria David Bowie, um enigma que redefiniu a cultura pop

  • 10/01/2026
(Foto: Reprodução)
O astro do rock David Bowie participa de uma coletiva de imprensa em Los Angeles, Califórnia, em 1990 Marilyn Weiss/AP Photo "David Bowie morreu em paz, cercado por sua família, após uma corajosa batalha de 18 meses contra o câncer", dizia a postagem na página oficial do astro pop britânico no Facebook, um dia após a morte dele, em 10 de janeiro de 2016. Os fãs reagiram com perplexidade, incredulidade e condolências. A postagem pedia respeito à "privacidade da família durante seu período de luto", não fornecendo mais detalhes. Além da esposa, a modelo Iman Mohamed Abdulmajid, o músico deixou dois filhos, Alexandria e Duncan Jones. Homem de muitas faces O primeiro grande sucesso do artista, nascido em 8 de janeiro de 1947 no bairro londrino de Brixton, foi "Space Oddity", em 1969. Depois de cultivar a androginia no início da carreira, uma de suas marcas registradas era a capacidade de mudar frequentemente de aparência e de estilo musical. Durante a era do glam rock, na primeira metade da década de 70, Bowie, cujo nome verdadeiro era David Jones, adotou como seu alter ego um astro de rock extraterrestre, o bissexual Ziggy Stardust. A sexualidade do próprio músico permaneceu tema de especulações, que variavam de gay e bissexual a "hétero enrustido", nas diferentes fases de sua vida. Veja os vídeos que estão em alta no g1 De 1976 a 1978, ele viveu em Berlim. Nessa época de dificuldades pessoais e artísticas, em que lutava contra a dependência das drogas, Bowie produziu três álbuns. Uma das principais canções foi uma colaboração com Brian Eno, a icônica "Heroes". Os primeiros anos da década de 1980, marcados pelo hit "Let's dance" e uma grande turnê pelos Estados Unidos, foram uma fase áurea para Bowie. Calcula-se que, ao longo de mais de meio século de trajetória, ele tenha superado os 140 milhões de discos vendidos em todo o mundo. Dez fatos sobre David Bowie 'Isolamento, abandono, medo, ansiedade' Criador polivalente e irrequieto, Bowie também foi produtor, arranjador e pintor. Como ator cinematográfico, o alienígena de "O homem que caiu do céu" (1976), o vampiro de "Fome de viver" (1983), o oficial britânico transgressor de "Furyo – Em nome da honra" (1983) ou o inventor Nikola Tesla em "O grande truque" (2006) contam entre suas atuações notáveis. Depois de Ziggy, ele também assumiu as personalidades fictícias do Major Tom e The Thin White Duke. Apesar de suas permanentes metamorfoses, em 2002 o londrino comentava, em entrevista à agência Associated Press, que na verdade só teria "trabalhado com a mesma temática", ao longo de toda a carreira. "As calças podem mudar, mas as palavras e temas em si, sobre que decidi escrever, têm a ver com isolamento, abandono, medo e ansiedade – todos os pontos altos da vida de uma pessoa." Na ocasião, ele também revelou que não sentia ser um intérprete por natureza. No entanto: "O que me deixa mais orgulhoso é que não consigo deixar de notar que influenciei o vocabulário da música pop." Despedida futurista O 25º e último disco de David Bowie em estúdio, "Blackstar", foi lançado em 8 de janeiro de 2016 – seu 69º aniversário e apenas dois dias antes de sua morte. A capa traz apenas uma estrela negra sobre fundo branco. Como era de se esperar, nele o músico inglês dá mais uma guinada estilística. O álbum anterior, "The Next Day", de 2013, foi percebido pela crítica como uma retrospectiva de toda a sua obra. O single "Where are we now" ("Onde estamos agora"), em especial, refletia sobre o período berlinense. Em "Blackstar", em contrapartida, ouve-se uma música futurista que se recusa a se curvar às leis do pop comercial. O jazz está no centro desse novo som, associado a elementos eletrônicos, batidas hip hop e muitos outros componentes do cosmo musical. Em parte, as sete canções contidas evitam o clássico esquema "verso e refrão", algumas são muito mais longas do que um típico número pop. Exemplo disso é a faixa-título, lançada já em novembro 2015. Com mais de dez minutos de duração, ela é tudo, menos easy listening. Uma melodia monótona sobre harmonias inusitadas cria um ambiente sombrio, quase místico. A certa altura, o ciclo claustrofóbico é rompido por um liberador interlúdio– para retornar, ainda mais desolador e estranhado, minutos depois. Essa concepção ganha significação especial ao se considerar que, durante a produção de "Blackstar", o artista se encontrava em meio à batalha contra o câncer. Como o produtor Tony Visconti contou à revista Rolling Stone, inspirado pelo álbum jazzístico "To Pimp a Butterfly", do rapper Kendrick Lamar, Bowie queria evitar, a todo custo, fazer um disco de rock. Então contatou o saxofonista Donny McCaslin, que influenciaria de forma definitiva a sonoridade do novo álbum. Um saxofone de plástico foi, aliás, o primeiro instrumento que o músico tocou, aos 13 anos de idade. Fã tira fotos de flores em um mural em homenagem a Bowie em Brixton, Londres, no aniversário de 10 anos da morte do cantor Isabel Infantes/Reuters Quem era David Bowie? Antes de ser acometido pelo câncer, Bowie apresentara outros problemas sérios de saúde. Ao que tudo indica, a vida excessiva de ídolo do rock, inclusive o abuso de drogas, começava a cobrar seus efeitos. Em 2004, ele sofreu um ataque cardíaco, tendo que ser submetido a uma cirurgia. A isso se atribuem, pelo menos em parte, os dez anos de silêncio fonográfico entre "Reality" e "The Next Day". Mesmo assim, ele nunca esteve ausente do imaginário pop universal. Seu nome "está consagrado na história da música pop, e ele está sempre presente, pois as bandas jovens citam ou se referem à sua música", afirmou o teórico de música popular Christoph Jacke, ainda antes da morte do cantor e compositor. "Quem era David Bowie?" é uma questão que seguirá ocupando os fãs e estudiosos da cultura pop. Segundo Jacke, Bowie habilmente evitou responder a essa pergunta, durante décadas. Certa vez ele afirmou que Ziggy Stardust, Major Tom e The Thin White Duke haviam preenchido sua finalidade e podiam agora se aposentar. O especialista alemão concorda que o astro não mais precisava dessas máscaras: ele criara David Bowie, uma personagem artificial forte, que funcionava excepcionalmente bem, e atrás da qual ele podia se esconder. Desse modo, consagrou-se como ícone da cultura pop contemporânea. E qualquer definição de sua identidade nunca passará do instantâneo de um determinado momento. Autor: Ruben Kalus , Kate Müser, Augusto Valente

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/noticia/2026/01/10/dez-anos-morte-david-bowie.ghtml


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